
A quinta Oficina de Leitura e Escrita do projeto Alfa-EJA Brasil foi realizada no último sábado (25), na Secretaria Municipal da Educação (SEDUC) de São Francisco do Conde. Com o tema “Grafite é escrita de resistência: das nossas vozes para o muro”, a atividade incentivou os estudantes da Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJA) a expressarem suas histórias e experiências por meio da arte urbana.
Convidado para conduzir a oficina, o artista Torpedo apresentou aos educandos as diferenças entre grafite e pichação, explicou o papel social da arte urbana e acompanhou a produção dos primeiros esboços desenvolvidos pelos participantes. Durante a atividade, os estudantes utilizaram palavras e mensagens construídas ao longo das oficinas anteriores para criar desenhos que representarão suas vivências e a identidade da turma.
Um dos destaques do encontro foi o anúncio de que os desenhos produzidos serão reunidos para compor um mural coletivo de grafite em São Francisco do Conde. A obra será o primeiro mural de grafite do município, transformando as produções dos educandos em uma intervenção artística permanente na cidade.
Projeto ALFA-EJA Brasil
Entre março e julho deste ano, o Projeto ALFA-EJA Brasil realizou 157 Oficinas de Leitura e Escrita, impactando 1.216 estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em 15 municípios das regiões Norte e Nordeste. Desenvolvida pelo Instituto de Educação e Direitos Humanos Paulo Freire (IEDHPF), em parceria com a Petrobras, a iniciativa promoveu um percurso formativo que integrou memória, território, comunicação, arte e participação comunitária, reafirmando os princípios da Educação Popular e fortalecendo o protagonismo de jovens, adultos e idosos.
As atividades envolveram educandos de Oiapoque (AP); Carauari e Coari (AM); Belém (PA); Fortaleza, Caucaia e Icapuí (CE); Alto do Rodrigues (RN); Conde, Araçás e São Francisco do Conde (BA); Santa Luzia do Itanhy e Brejo Grande (SE); Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho (PE). Em diferentes contextos sociais, culturais e territoriais, as oficinas criaram espaços de diálogo, escuta sensível e produção coletiva de conhecimentos, conectando os saberes da vida às práticas educativas desenvolvidas pelo projeto.
Alcance das oficinas
Além da ampla mobilização nos territórios, as oficinas registraram 789 educandos frequentes ao longo do semestre. O levantamento de perfil aplicado pelo Projeto contou com 631 respondentes, o equivalente a 77,9% dos participantes frequentes e 61,9% da meta prevista para o período, produzindo um panorama sobre quem são os estudantes atendidos e suas condições de vida.
“As Oficinas de Leitura e Escrita foram pensadas como estratégia de aprendizagem considerando a diversidade dos sujeitos, os contextos sociais e a equidade no acesso aos saberes e conhecimentos, permitindo que educandos trabalhadores possam resgatar e complementar sua formação e sua caminhada cidadã”, explica Francisca Elenir Alves, coordenadora-geral do Projeto ALFA-EJA Brasil.
Perfil dos educandos
O levantamento revelou um público majoritariamente feminino, com predominância de estudantes entre 40 e 60 anos, evidenciando o retorno de adultos e idosos à escola. Ao mesmo tempo, chamou atenção a presença significativa de educandos com menos de 18 anos, reforçando o fenômeno da juvenização da EJA e a necessidade de práticas pedagógicas capazes de dialogar com diferentes gerações.
Grande parte dos participantes possui renda familiar de até dois salários mínimos e acessa a internet exclusivamente pelo celular, com habilidades tecnológicas básicas. O perfil revela trabalhadores e trabalhadoras, mães, pais, avós e jovens que convivem na mesma modalidade de ensino, reforçando a importância de metodologias que valorizem suas trajetórias de vida e suas condições concretas de aprendizagem.
As seis oficinas foram organizadas como um processo contínuo de aprendizagem, inspirado na pedagogia de Paulo Freire. Ao longo dos encontros, os educandos partiram da leitura de suas próprias experiências para construir coletivamente narrativas, cartas, manifestações artísticas e propostas de intervenção em seus territórios, fortalecendo vínculos com a comunidade e reafirmando a educação como prática de transformação social. Confira aqui como foi cada uma delas.
Oficina 1: Paulo Freire e a gente – o mundo que a gente já lê
A primeira oficina acolheu os educandos e valorizou os conhecimentos construídos ao longo da vida. A partir da pergunta “O que você aprendeu que não foi na escola?”, surgiram relatos sobre trabalho, cuidado, cultivo, construção e outras experiências do cotidiano.
O encontro apresentou o conceito de Leitura do Mundo e os princípios dos Círculos de Cultura, mostrando que o conhecimento nasce da experiência concreta e das relações com o território. A atividade fortaleceu a autoestima dos participantes e reafirmou o direito de todos ao saber.
Oficina 2: Memórias – de si e do seu território
Na segunda oficina, os educandos refletiram sobre as transformações de seus bairros e comunidades, comparando o passado e o presente dos territórios onde vivem. As conversas despertaram memórias afetivas, fortaleceram o sentimento de pertencimento e ampliaram a leitura crítica da realidade.
Os participantes também relacionaram seus saberes cotidianos com conteúdos escolares e iniciaram o preenchimento do instrumento “Leitura de Quem Sou Eu!”, registrando suas trajetórias, expectativas e motivações para retornar à escola. O encontro terminou com a construção de um mural coletivo de histórias e saberes.
Oficina 3: Diálogos em muitas vozes: a carta que não precisa só de letras
A terceira oficina discutiu o direito à palavra em diferentes formas de expressão. Inspirados por músicas e pelo filme ‘Central do Brasil’, os educandos produziram as Cartas para Esperançar, escolhendo destinatários como familiares, trabalhadores da Petrobras ou o próprio “eu” do passado.
As cartas puderam ser faladas, desenhadas, ditadas ou escritas, valorizando igualmente todas as linguagens. A proposta criou um ambiente acolhedor para compartilhar sentimentos, lembranças e sonhos, reafirmando a esperança como ação transformadora, no sentido do verbo esperançar.
Oficina 4: Socializando nossas cartas: do diálogo pessoal ao coletivo
Na quarta oficina, os participantes apresentaram suas cartas em um momento de escuta sensível e celebração coletiva. Áudios foram reproduzidos, desenhos e colagens compartilhados e cartas lidas em voz alta, sempre acompanhados de aplausos e acolhimento da turma.
Todas as produções foram reunidas no Varal de Esperançar, símbolo da união das histórias individuais. A leitura coletiva do varal permitiu identificar temas comuns — como fé, luta, amor, trabalho e esperança — que serviram de base para as próximas oficinas.
Oficina 5: Grafite é escrita de resistência: das nossas vozes para o muro
A quinta oficina apresentou o grafite como linguagem artística e forma de diálogo com a comunidade. A atividade aproximou essa expressão urbana da cultura popular, com referências à Patativa do Assaré, à literatura de cordel e à escrevivência de Conceição Evaristo.
A partir das palavras e mensagens do Varal de Esperançar, os educandos criaram esboços de grafite em papel, experimentando técnicas simples de stencil, lettering, colagem e desenho livre. O processo valorizou a autoria, a criatividade e a força da mensagem coletiva.
Oficina 6: Intervenção e esperançar: planejando nossa marca na cidade
Na última oficina, os educandos reuniram os esboços produzidos, as palavras do varal e reflexões sobre o meio ambiente e o futuro das comunidades. As rodas de conversa abordaram memórias sobre rios, árvores, áreas verdes e o cuidado com a vida e com as próximas gerações.
O grupo escolheu coletivamente as frases e imagens que poderão representar uma intervenção artística da turma na cidade. Todo o planejamento foi registrado no Documento do Esperançar, símbolo do compromisso de transformar palavras em ação coletiva.


